Audiovisual

Jeff e as armações do destino

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Acho que muita gente começa a ver esse filme sem muitas pretensões. Quando a gente vê a cara do Jason Segel no poster já imagina uma comédia meio besta que só serve de passatempo. Os primeiros minutos de filme, entretanto, desfazem essa suposição. Quanto mais se avança no roteiro, menos cara de comédia tem o filme. O mundo de Jeff parece fora de compasso e seu desejo por direcionamento gera estranhamento, dando um tom levemente sombrio à história no breve flerte com o suicídio, quando os sinais do universo parecem sugerir que ele busque uma faca.

Pelo que vemos, a busca de Jeff não é uma pura manifestação cômica de excentricidade, mas a tentativa desesperada de preencher um vazio que lhe causa sofrimento. O movimento constante da câmera parece acompanhar as inconstâncias de Jeff, sempre seguindo a trilha de sinais que apenas ele consegue ver – ao menos até os últimos momentos. Acho que uma das várias questões que o filme nos leva a enfrentar está justamente na natureza dos sinais que impulsionam a jornada de Jeff. O universo realmente está direcionando ele para o exato local em que ele é necessário? Ou ele está imprimindo na aleatoriedade do mundo significados que ele criou, construindo assim seu próprio destino?

Independente da resposta, o filme parece sugerir que todos os personagens devem encontrar algo que dê substancialidade a suas vidas, sob o risco de perdê-las ou torná-las insuportáveis.

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Raça e racismo, Uncategorized

Tropas palacianas

Achei umas coisas bem curiosas zanzando pelo site do Planalto. Duas delas me chamaram a atenção na seção sobre as tropas que atuam no planalto.
a) A tropa mais famosa a fazer a segurança da presidenta são os Dragões da Independência, certo? Segundo o site da presidência “O titulo ‘Dragões da Independência’ tem a sua origem nos Dragões de Minas, cuja palavra simboliza a fidelidade à casa de Bragança, da família Real Portuguesa”. Eles teriam estado em vários momentos importantes da nossa história. Tipo a independência e a… Proclamação da República. Diz o site que as tropas leais à casa de Bragança teriam emprestado ao Marechal Deodoro da Fonseca um cavalo baio, sobre o qual ele derrubou o Império e instaurou nossa amada República! Então vejamos, a tropa de guarda do Imperador ajudou o marechal golpista. Não quero apontar dedos, mas não sei se foi uma atitude de grandes honras militares…

b) Um grupo de artilharia chamado Artilheiros da Bateria Histórica Caiena trabalha no Planalto também. Eles têm esse nome porque em 1809 quando o Império Português declarou guerra à França de Napoleão, esse foi o regimento enviado para ocupar a cidade de Caiena, na Guiana Francesa. Além de ser um desdobramento da guerra na Europa, a ocupação tinha como objetivo evitar insurreições negras na colônia francesa (ecoando a revolução do Haiti). Segundo Flávio dos Santos Gomes, no “A Hidra e os Pântanos”, as autoridades portuguesas consideravam que a “liberdade dos negros fora prejudicialíssima a Caiena”. Hoje os soldados dessa tropa usam uma insígnia no braço com a palavra “Caiena”. Uma forma de lembrar aquela vez em que intervimos em outro país pra evitar o espalhamento da Onda Negra.

Epígrafes

Excerto #1

Há no ato de evocação um desejo implícito de revogar os gestos consumados e repotencializar as oportunidades perdidas, as experiências reprimidas, as decisões contidas. Um desejo de arrastar o futuro para o passado e de saturar esse mesmo futuro com as frustrações acumuladas no tempo.

Sevcenko, N. A Revolta da Vacina. Ed. Cosac Naify. 2010. p. 119

Insurgência, Política

Reminiscências de Althusser

O movimento autônomo e descentralizado de estudantes secundaristas se espalha pelo país. Tudo começou em São Paulo, quando o governo do estado apresentou um plano de reestruturação das escolas paulistas sem qualquer preocupação de submeter a política a um debate público. Fechado ao diálogo, o governador Alckmin viu os estudantes responderem com a ocupação de centenas de escolas, que se tornaram palco de uma guerra de significados na mídia. Os grandes jornais empregaram sua capacidade de comunicação na defesa do governo, tentando associar o rotulo de invasões à manifestação dos estudantes e oferecendo apoio à atuação truculenta da polícia militar. A resposta pessoal de Alckmin foi exemplar do projeto de poder capitaneado pelo seu partido, o PSDB. Em paralelo à ação repressiva da polícia, Alckmin foi à mídia que lhe apoia na tentativa de deslegitimar as ocupações. Seu argumento era que as manifestações tinham caráter político (argumento já utilizado pelo governado em vários outros momento na tentativa de estigmatizar movimentos opositores).

Agora são os estudantes do Goiás que se organizam e ocupam suas escolas como forma de protesto contra a política autoritária de desmonte do ensino público capitaneada pelo governador Marconi Perillo, também do PSDB. Na gestão de Perillo deu-se início à transferência da administração de escolas do poder público para a iniciativa privada. A secretária de educação do Goiás, Raquel Teixeira, chegou a sugerir que a administração de escolas seria atividade própria de um gestor, não de um educador. Junto aos planos de transferência da administração de escolas para entidades privadas, o governo tucano do Goiás vem expandindo o número de escolas geridas pela Polícia Militar, que tem como horizonte pedagógico o ensino por meio da aplicação de uma disciplina militar aos estudantes. O plano dos tucanos para a política de educação se resume, portanto, à privatização e militarização das escolas.

Diante desse quadro, estudantes secundaristas goianos seguiram o exemplo paulista de ocupar as salas de aula exigindo melhorias na educação, a começar pela democratização na gestão das escolas e das políticas públicas estaduais. Também seguindo o exemplo paulista, a mídia goiana prontamente assumiu a batalha ideológica. Em 16 de dezembro, o Diário da Manhã, 2º maior jornal do estado, publicou uma matéria intitulada “Invasão de escolas é ação política“. O que para qualquer cidadão poderia soar como obviedade, assumia no jornal tom de denuncia decorrente da visão estreita dos editores sobre o que é política (ou a visão que eles desejam vender).

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Em meio a supostas revelações de que diversas organizações contrárias às medidas tomadas pelo governo estadual lideravam o movimento estudantil, o jornal publicou a reprodução de um post em que um amigo meu convidava pessoas interessadas a se juntar para conhecer uma das escolas ocupadas e os estudantes que lá estão. Assim como fizeram inúmeras outras pessoas em São Paulo e no Goiás, o objetivo da visita seria escutar os estudantes, conhecer as atividades que estão desenvolvendo na escola e oferecer nosso apoio. Afinal, parte de toda a disputa encabeçada pelos estudantes é a construção de uma escola que dialogue com o mundo ao seu redor; que não se feche no ensino bancário, mas que promova a inserção da escola na comunidade e vice-versa. Entretanto, a equipe editorial do jornal viu na proposta uma prova de que o chamado movimento de invasores estaria articulando a “participação de militantes de Brasília”. Com isso, o jornal pretendia provar sua tese de que trata-se de um movimento político, que nada tem a ver com a melhoria do ensino. As obtusidades aí implícitas são muitas e falo disso em outra oportunidade.

Diante da irresponsável publicação do jornal, que divulgou informações errôneas sem ter se preocupando em checar os dados que reportava, encaminhamos um texto, no exercício do direito de resposta, que foi publicado na edição do dia 17 de dezembro. Segue aqui o texto que foi publicado:

A AUTONOMIA QUE NOS ENCANTA

DIREITO DE RESPOSTA À MATÉRIA INTITULADA “MOVIMENTO INVASOR ARTICULA PARTICIPAÇÃO DE MILITANTES DE BRASILIA” – DM DIGITAL, 16/12/2015 pg.13

No dia 15/12/2015 uma pessoa postou em sua página de Facebook o desejo de visitar as escolas ocupada em Goiás, sugerindo que amigos/as se reunissem para dividir os custos do transporte saindo de Brasilia rumo às ocupações de Anápolis, Goiânia ou Aparecida de Goiás. O intuito era prestar solidariedade a estudantes secundaristas que lutam contra a decisão da Secretaria de Educação de passar a gestão de suas escolas a entes privados. Muitas pessoas comentaram a publicação, também interessadas em apoiar o movimento estudantil goiano. Não foi assim que entendeu o Diário da Manhã que, sem consultar ninguém, viu nesta iniciativa espontânea algo orquestrado por supostos grupos políticos externos e expôs imagens pessoais em um artigo de seu jornal intitulado “Movimento Invasor Articula Participação de Militantes de Brasilia”. Nos sentimos lesados pela referida matéria: nosso interesse em ir às escolas é sobretudo educativo, pois este movimento tem dado significativas aulas de democracia e participação que toda sociedade deve aprender.

Os protagonistas dessa luta são os estudantes secundaristas. Lutam por uma educação pública de qualidade e desejam participar na gestão das escolas. Não queremos (de fora e de longe) interferir em seu movimento. É justamente sua independência e autonomia que nos encanta. Se esta mobilização despertou o interesse de diferentes pessoas que se organizaram em seu apoio, o mérito deve ser dado unicamente aos/às secundaristas. 
Adriana Saraiva, Aldineia Oliveira, Chico Nogueira, Darlana Godoi, Gabriel Santos Elias, Gilberto Tedeia, John Razen, Mariana Lima, Maria Laura Romero, Nascidade de Si, Paique Duques Santarém
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Raça e racismo, Traduções

Porque eu sou sim uma mulher negra com raiva

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Foto de Femi Matti

Traduzido do original em inglês.

Dominique Matti

Porque quando eu tinha cinco anos, minha colega de classe do jardim de infância me disse que eu não poderia ser a princesa no jogo que estávamos jogando porque meninas negras não podiam ser princesas. Porque eu estava no terceiro ano na primeira vez que um professor pareceu chocado com o quão “articulada” eu era. Porque na quarta série me disseram que meu paquera não gostava de meninas negras.

Porque no sexto ano um paquera diferente me disse que eu era bonita – para uma menina negra. Porque na 7 ª série meu bairro suburbano predominantemente negro foi apelidado de “Spring Guetos” em vez de o chamarem pelo nome (Spring Meadows). Porque eu estava na 8 ª série da primeira vez que fui chamado de Oreo e disseram que eu “não era realmente preta” como se fosse um elogio.

Porque no 9º ano, quando eu mudei escola, um rapaz me disse que com certeza eu tinha que ter alguma mistura pra ser tão bonita. Porque no 10º ano o meu grupo de amigos e eu fomos chamados na diretoria e perguntados se éramos uma gangue e se tínhamos figuras paternas. Porque no 11º ano meu professor do curso avançado de Inglês me disse que eu não escrevia como uma estudante universitária (embora mais tarde eu tenha gabaritado as provas).

Porque quando eu trabalhei como voluntária na Costa Rica durante o verão, eu fui assediada na rua e chamada de “negrita”. Porque quando eu perguntei ao meu pai-anfitrião se aquilo era como ser chamada de crioula*, ele disse que não, era um elogio porque as mulheres negras são percebidas como muito boas na cama. Porque eu era uma criança.

Porque eu assisti da arquibancada enquanto o batalhão escolar não deixou meu irmão entrar em campo em um jogo de futebol depois de confundi-lo com um outro rapaz negro que fora expulso da escola. Porque o policial jogou spray de pimenta na cara dele por ter insistindo que estava sendo confundido com outra pessoa. Porque eu fui suspensa por dizer ao policial que ele não merecia respeito. Porque o meu namorado no último ano da escola disse “crioula”.

Porque eu era uma das duas meninas negras na turma de calouros na minha faculdade. Porque em reuniões para falar sobre como atrair mais estudantes negros, alguém sugeriu que a instituição atraia um determinado grupo demográfico (vida sustentável, agricultura doméstica, hippies em geral) e que talvez as pessoas negras “simplesmente não estivessem interessadas ​​em coisas desse tipo”. Porque o meu namorado da faculdade me chamou de “negra de fogo” como uma piada quando ele fez o pedido por mim em um restaurante. Porque o namorado seguinte que me calou quando eu disse que ele era privilegiado. Porque eu não posso voltar para a minha cidade natal sem ser parada pela polícia.

Porque quando me casei, as pessoas presumiam que eu estava grávida. Porque as pessoas que sabem que eu sou casada chamam meu marido meu “pai do bebê.” Porque a minha gravidez foi atormentada com vídeos de vidas negras sendo levado a sangue frio. Porque os assassinos ainda caminham pelas ruas.

Porque a nação me enviou a mensagem de que a vida do meu filho não importa. Porque quando Tamir Rice foi assassinado eu me encolhi na cama e chorei abraçando minha barriga. Porque, de dentro, meu filho me ouviu chorando. Porque eles não se importam conosco. Porque quando eu estava grávida de 7 meses meu vizinho me pediu para ajudá-lo a subir uma cômoda pelas escadas.

Porque eu não sou vista como uma mulher. Porque não estou autorizada a ser frágil. Porque a enfermeira que me registrou no hospital para parir não olhava o meu marido nos olhos. Porque a grande maioria das pessoas não vai olhar meu marido nos olhos. Porque quando os médicos colocaram meu filho nos meus braços e eu vi que sua pele era tão escura quanto a do pai, eu soube que sua vida seria ainda mais difícil.

Porque ele vai ser encarado da mesma maneira que eu era. Porque ele será forçado a crescer antes que seja adulto. Porque estranhos na loja acham que é ok chegar no carrinho de bebê do meu filho e tocá-lo sem me perguntar nada. Porque nós não temos direito a limites. Porque eles pensam que estamos aqui para sua apreciação. Porque as pessoas não pensam que somos pessoas.

Porque o meu sobrinho me disse que não poderia ser o Homem-Aranha como ele gostaria, porque o Homem-Aranha é branco. Porque quando ele tinha quatro anos, disse que queria ser branco para poder andar de barco como as pessoas na TV. Porque eu não poderia salvá-lo de tudo isso. Porque eu não posso proteger meu filho. Porque eu não posso me proteger.

Porque meu estômago revira sempre que vejo um carro da polícia. Porque quando meu marido sai de casa à noite, tenho medo de que ele vá ser morto por se parecer com alguém. Porque eu me preocupo que se eu desaparecer como as outras 64.000 mulheres negras neste país, as autoridades não vão se esforçar para me encontrar. Porque eu sou descartável. Porque eu sou odiada. Porque continuamos morrendo. Porque eles justificam nossas mortes. Porque ninguém é responsabilizado. Porque eu sou gaslighted.

Porque me disseram que se eu falo sobre ser oprimida, estou me vitimizando. Porque os nossos assassinatos são filmados e ainda assim perdoados. Porque eu não sei o que significa isso de deixar pra lá. Porque fazer as coisas que meus colegas brancos fazem com facilidade poderia custar minha própria vida – invadir prédios abandonados, fumar um baseado, vestir um moletom, olhar um policial nos olhos, tocar música alta, existir. Porque eu tenho medo de relaxar. Porque eu estou traumatizada.

Porque não há um lugar no mundo que a supremacia branca não tenha tocado.

Porque eu estou presa aqui. Porque o campo de jogo não está nivelado. Porque eu amo minha pele. Porque eu amo ser uma mulher. Porque não odiar a mim mesma é algo considerado radical. Porque eu já fui chamada de racista por me defender. Porque todos os grandes protestos são para homens negros cis. Porque já me disseram que falar sobre as mulheres que morreram tira o foco da questão real.

Porque eu não tenho pausa na luta. Porque tudo é uma luta. Porque a minha raiva não é tratada como legítima. Porque eles não se preocupam com a minha dor. Porque eles não acreditam na minha dor. Porque eles perdoam a si mesmos sem pestanejar. Porque eu não sou livre. Porque a consciência disso permeia tudo. Porque não está acabando. Porque ensinam às crianças que já acabou. Porque alguém vai fazer valer a sua supremacia sobre mim hoje. Porque vão fazer isso amanhã.

Porque eu quero mais. Porque eu mereço mais.

*Nigger no original

literatura

o remorso de baltazar serapião

o tempo de baltazar só conhece o aqui e o agora. nas terras de dom afonso de castro, senhor de chão, gentes e animais, não há futuro ou passado, apenas a repetição eterna da vida encarnada em tradição. sem geografia ou história, valter hugo mãe descreve a tragédia dos sargas, a família de nome serapião e que toma o apelido da velha vaca que o povo acusa de mãe e amante da família. como os desventurados da hélade, baltazar e seus parentes parecem preso a um destino do qual não podem fugir, acorrentados sem remédio que estão a seu senhor, ao trabalho e às tradições. de todas as amarras, a tradição, o ideal da vida correta e normal, parece ser o fio que os arrasta para a queda. seu mundo é um mundo masculino, no qual as vozes das mulheres não são apenas inadequadas, mas também perigosas. enquanto vai se enveredando pelas teias do destino que lhes é reservado, os homens-sarga acreditam-se seduzidos por imaginárias vozes femininas, desapercebidos que é sua própria hombridade que os trai.

a vida nesse lugar e tempo vazios é regida por uma estrita economia de assenhoramento, na qual o poder d’el-rey e o mando de dom afonso sobre o povo, são projeções públicas do senhorio masculino no lar. mais bestas que gente aos olhos do povo, os sargas são ainda titulares do dever-direito de reinado nos limites de seu casebre. ao homem cabe o dever de educar sua esposa e conduzí-la pelo caminho da virtude, acreditam os sargas; e no interior das promessas de amor e cuidado estão a violência e o ódio ao feminino. essas duas inclinações arrastam por caminhos opostos baltazar. febril em suas paixões por emersinda, o anjo que toma por esposa, e, ao mesmo tempo, impelido pelos deveres de homem a moldar à pancadas o caráter da esposa. mas, por mais que o repita para conforto próprio, não há preocupação real com a pessoa de ermesinda na violência de baltazar. apenas raiva pela própria impotência.

a brutalidade está misturada à terra e à vida dos sargas e mostra seus rostos na destruição que se espalha pela vida das mulheres. no pé torto da mãe que vive para sofrer e morre no sangue com a promessa de purificação posterior; em teresa diaba cujo corpo é público – alívio da masculinidade local, que descarrega nela gozo e violência; na mulher queimada, desfigurada e excluída pelo povo que teme, mais que tudo, suas exigências de liberdade; em brunilda, que é metáfora concreta dos corpos camponeses, objeto à disposição do senhor tão logo lhe vem a menstruação e em ermesinda, o anjo que é levado à queda, em cujo corpo destruído é paulatinamente marcada a derrocada final da família, destruída pelo apego à tradição.

é tentador pensar na família dos sargas como tão aleijada e doente que é capaz de deitar ao inferno uma criatura divina como ermesinda. conclusão assim rápida não nos deixa ver que a tragédia não é pessoal, mas sintoma da dinâmica destrutiva da sociedade patriarcal em que se enredam os personagens. baltazar nos põe diante de um dilema da culpa. é preciso apontar sua violência, seu papel como artífice da destruição que atinge ermesinda, e é preciso também reparar o sentido de dever imbuído na masculinidade torta que lhe foi impressa.

a história sem maíusculas e com uma sintaxe que desafia a norma dá a impressão de reconstruir a oralidade de um português arcaico que reflete o arcaísmo dos preconceitos de baltazar. seu destino é tecido pelas nornas na forma das mulheres que cruzam sua vida e que a tradição manda fazer calar. como é típico das tragédias, sua tentativa de fugir apenas o guia por uma caminhada cega que o leva a destruir tudo o que ama.

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Política

O liberal conservador brasileiro

Liberalismo e autoritarismo no Brasil são irmãos de berço. Separá-los no pensamento político nacional é quase impossível, e essa indissociabilidade ainda é perceptível nos discursos automáticos que ganham força com a adesão irrefletida das pessoas. Me espanta, por exemplo, como ecoa forte entre jovens recém-saídos do ensino médio a ideia de que o controle repressivo sobre certas condutas se justifica porque o país supostamente não está pronto para a liberdade. Essa ideia de tutela sobre o grau de liberdade de um povo parece se sustentar na presunção de que há um certo nível de amadurecimento social que deve ser atingido antes que se possa falar em autonomia pública. O que é esse amadurecimento, não se sabe. A única coisa certa aqui é que o momento não é agora.

E não são só conservadores e reacionários que defendem essa ideia. Pessoas que se dizem decididamente liberais e que afirmam com paixão sua admiração pelo liberalismo anglo-saxão ou pelo progresso social europeu, são também defensoras do papel modernizador do Estado no Brasil. Para elas, cabe à burocracia estatal conduzir a cultura e psicologia nacionais de seu estado de servilismo pré-moderno à civilização. Obviamente (quase) ninguém defende essa ideia nesses termos. Mas já defendeu. E quem fez isso nas primeiras décadas do século XX ganhou, porque se o discurso autoritário já não encontra grandes ecos entre a intelectualidade acadêmica, já fincou raízes profundas no senso comum nacional.

O paradoxo dos liberais autoritários no Brasil não é resultado de uma apropriação descuidada recente, coisa de telefone-sem-fio pelas redes sociais. É uma construção histórica de uma elite intelectual com aspirações europeias, encantada com o discurso liberal, mas descrente da base étnica ou social do país para realizá-lo. Os principais pensadores dos regimes autoritários brasileiros se apresentavam como defensores dos ideais liberais. Sua vinculação aos governos assumia um caráter instrumental, fundado na compreensão do Estado como o impulsionador do progresso social. Dessa forma, as preferências por certos tipos de liberdades, que se evidenciam na prática política dos liberais brasileiros contemporâneos, fez parte de todo o cenário político republicano, sob a forma da separação entre diretos civis e políticos, com preferência aos primeiros.

O problema aí é a continuidade cômoda desse estado de imaturidade social a que o liberalismo brasileiro condenou o povo. Afinal, quando a sociedade estará pronta? Quando estará madura o suficiente para tomar as rédeas de seu próprio destino? É evidente o potencial conservador dessa postura. Não estranha que normalmente a mesma elite intelectual que se mobilize por liberdades econômicas antes de quaisquer outras seja formada pela mesma elite que se beneficia do esvaziamento dos espaços públicos.